Por Porfírio Silva | Segunda-feira, 31 Agosto , 2009, 11:26

 

João Rodrigues escreve hoje, na sua habitual crónica no quotidiano i, que o recente alargamento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano (uma medida de esquerda, reconhece), pode ser posto em causa pelo desvirtuamento da escola pública. Nesse desvirtuamento envolve o actual governo socialista. Trata-se de uma nova moda: como se tornou impossível esconder as políticas de esquerda do actual governo, ataca-se de cernelha. Assim: as medidas tal e tal até são de esquerda, mas, na falta de outras medidas x e y, estas afinal não são bem de esquerda.

Ora, mesmo à primeira vista, o artigo de João Rodrigues (que muitas vezes escreve coisas muito pertinentes) tem vários vícios lamentáveis.

Primeiro, parece ignorar o enorme investimento político (e material) feito por este governo na escola pública. Em muitas áreas, uma aposta sem precedentes: aulas de substituição como princípio de um reforço da oferta; concretização do princípio da escola a tempo inteiro; reestruturação da rede do básico; modernização do parque escola; generalização do ensino do inglês, da música e da actividade desportiva no 1º ciclo; reforço do ensino artístico; alargamento do acesso à acção social escolar; forte desenvolvimento do ensino profissional. Exemplos, apenas. Exemplos do fortíssimo investimento deste governo na escola pública. Tudo isso é passado em branco.

Segundo, o artigo de João Rodrigues cede à tentação do imediatismo eleitoral fácil. Quando diz que o modelo de avaliação dos professores faz parte de um ataque à escola pública. Podem ter-se variadas opiniões sobre o modelo que em concreto foi proposto, o qual, certamente, não é perfeito (como nada na vida é perfeito). Mas esquecer que a avaliação do desempenho docente, e que essa avaliação deve ter consequências, é um elemento central de uma política de promoção e defesa da escola pública – é um esquecimento demasiado grave. O “deixar andar” é que seria conveniente para os que esperam que a escola pública arraste os pés – para deixar espaço crescente aos privados. Repito: qualquer que seja a opinião sobre esta avaliação, não é sério meter essa iniciativa na gaveta do ataque à escola pública.

Terceiro, João Rodrigues, para promover a escola pública, propõe acabar com o financiamento (directo e indirecto) ao ensino privado. Aqui temos uma amostra excelente da insensibilidade social das opiniões pretensamente radicais. Saberá o autor do artigo o que isso significaria, por exemplo em termos da oferta de ensino profissional? Ou em termos de oferta educativa para sectores com necessidades específicas, por exemplo deficiências? E, já agora, abrangeria também o ensino cooperativo nessa “expulsão”? E tem a noção do que isso significaria para milhares de famílias? Ou isso não interessa nada à sua “cruzada”?

Este texto de João Rodrigues é um bom exemplo de quão inquinados andam os debates à esquerda. Talvez o PS se tenha distraído mais do que o aconselhável de certas preocupações a que dão voz outras forças de esquerda. E até uma interessante esquerda académica que por aí anda. Mas a ligeireza com que certos pensadores, que se pretendem da esquerda da esquerda, atiram para cima da mesa com distorções da realidade e com versões mal embrulhadas de velhas tentações de engenharia social – mostra que essa “esquerda da esquerda” tem ainda de fazer um esforço de concentração no real. Porque o real nunca é tão simples como as tentações ideológicas querem fazer crer. Por muito necessárias que sejam as ideologias. Que são.

 

(também aqui)


Ana a 31 de Agosto de 2009 às 15:04
Deviam aplicar esses princípios da avaliação aos alunos. Porque quando 'não podem ficar retidos' ou passam com 8 negativas estão a deixar que a escola pública arraste os pés. E falar de deficiências é falta de consciência. Principalmente depois das medidas deste governo que ao pretender aumentar a inclusão prejudicou muitas crianças com deficiências ao 'obrigá-las' a frequentar escolas públicas normais.

Porfírio Silva a 31 de Agosto de 2009 às 18:58
O debate sobre as melhores formas de proporcionar as melhores oportunidades às pessoas com deficiência é velho e não está encerrado. Não apenas em Portugal, mas pelo menos em toda a Europa. Confundir uma opção integradora com um ataque às pessoas com deficiência - parece-me um abuso de expressão. Podem ter-se opiniões diferentes sobre como enfrentar certas situações sem tratar isso com simplismo. Até por uma questão de respeito pelas próprias pessoas com deficiência.
Cumprimentos.

Miguel Lopes a 31 de Agosto de 2009 às 15:40
"João Rodrigues, para promover a escola pública, propõe acabar com o financiamento (directo e indirecto) ao ensino privado."

E eu concordo. Ou melhor, e dito de outra maneira: o Estado nunca deve subsidiar a exclusão pelo preço ou a segregação por escalão remuneratório. Ele não falou do ensino cooperativo, onde essas lógicas podem não se verificar. Não confunda as coisas.
Alguém acha que faz algum sentido fazer a Escola Pública para alisar as desigualdades de partida, e depois para contrariar isto vamos subsidiar o Colégio São João de Brito, alimentando o apartheid social?
É óbvio que este governo fez políticas de esquerda como o alargamento do horário e das actividades. Os mecanismos de competição entre professores, confesso que me deixam pensativo...assim como a triste realidade de ver professores a recibo verde.

Cumprimentos

Porfírio Silva a 31 de Agosto de 2009 às 18:54
Considerar que o colégio de São João de Brito "explica" o que é a escola privada em Portugal é apenas mais um sintoma do desconhecimento que menciono no post. O JR de facto não falou no ensino cooperativo, mas a lógica do artigo que ele escreveu aplica-se também a este caso. Dei exemplos de casos em que toda esta pressa radical seria desastrosa.
Outro aspecto engraçado é a urticária com a "competição entre professores". Parece que alguma esquerda pensa que a competição é coisa lá da direita. O conceito de "emulação socialista" não lhe diz nada? E não foram os socialistas à moda do PS que a inventaram. De facto, ver a esquerda a desprezar a noção de esforço pessoal pelo bem comum é curioso...
Cumprimentos.

Miguel Lopes a 1 de Setembro de 2009 às 02:30
"Considerar que o colégio de São João de Brito "explica" o que é a escola privada"

Irrelevante o nome do colégio, o que interessa é o princípio por onde se deduz tudo o resto. O princípio é este: o Estado não financia apartheid social!!!!.
Há ensino cooperativo que acolhe todos e combate essa mesma segregação. Não é a esse que me refiro. E sem me querer armar em exegeta, também não me parece que seja esse ensino a que se refere o texto de JR.

"mas a lógica do artigo que ele escreveu aplica-se também a este caso."

Porquê?

"Dei exemplos de casos em que toda esta pressa radical seria desastrosa."

Só sendo radicais nos nossos princípios podemos, indo à raiz dos problemas, mudar o que quer que seja. Pois radical, com certeza.

"Parece que alguma esquerda pensa que a competição é coisa lá da direita."

Não. O que é da direita é achar que todos os mecanismos de competição são eficientes e positivos.

"O conceito de "emulação socialista" não lhe diz nada?" E não foram os socialistas à moda do PS que a inventaram."

Claro que sim, o stakhanovismo. Convém saber a opinião dos outros acerca da exploração, mesmo quando é feita pela grande máquina, antes de a pressupor.
Como disse: o fim é a melhor educação e a sua total gratuitidade, o meio pode ou não passar por sistemas de competição entre os professores. Nunca pensei a sério nos seus benefícios, e se compensam eventuais "custos".

Cumprimentos

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