Por Hugo Mendes | Segunda-feira, 31 Agosto , 2009, 01:10

No seu Evolution for Everyone, D.S.Wilson conta a certa altura a seguinte história:

 

«De acordo com a lenda, Wiliam James (o famoso psicólogo) foi uma vez abordado depois de uma aula por uma mulher de idade avançada que partilhou com ele a sua teoria de que o planeta Terra está apoiado nas costas de uma tartaruga gigante. Gentilmente, James perguntou-lhe em que se apoiava a tartaruga. “Uma segunda tartaruga ainda maior!”, respondeu ela com confiança. “Mas em que se apoia a segunda tartaruga, continuou James, na expectativa de mostrar o absurdo do argumento. A mulher afirmou de modo triunfal: “Não há saída, Mr.James – são tartarugas até ao fim!”» (p.133)

 

Esta pequena história faz-me lembrar aquela que parece ser a estratégia política de Francisco Louçã para o país. Primeiro, espoliamos os ricos. O que fazer depois? Continuamos a espoliar os ricos – desta vez, aqueles que são mais ricos que os primeiros, porque escaparam à primeira leva. O que fazer depois? Bom, depois vamos atrás dos ainda mais ricos – as tartarugas maiores – que conseguiram fugir….And so on.

 

Quem me lê, saberá que eu costumo estar mais preocupado com os pobres do que com os ricos. O problema não bem é esse: o problema é que isto não é estratégia para o país. O país precisa de crescer e produzir mais e melhor, e precisa de redistribuir melhor os frutos do crescimento para reduzir as desigualdades e poder aumentar as oportunidades. Louçã só responde à segunda questão, mas parece ignorar a primeira, absolutamente essencial para o nosso futuro colectivo: como aumentar a produtividade dos nossos trabalhadores e como fazer crescer a nossa economia?

 

Atenção: não sou daqueles que defende que devemos pensar primeiro em fazer crescer o bolo, e só depois em redistribui-lo; as estratégias de crescimento e de redistribuição devem ser pensadas em conjunto. E não sou daqueles que acha que a redução das desigualdades é, per si, contrária à eficácia e ao aumento da produtividade; pelo contrário, a compressão relativa de salários e estatutos pode, se pensada e implementada no contexto certo, ser compatível com um aumento de produtividade e com a inovação (os meus ídolos são mesmo os economistas da confederação sindical sueca LO, Gosta Rehn e Rudolph Meider, cujo modelo, inventado nos anos a seguir à II Guerra Mundial, permitiu à economia sueca simultaneamente crescer e reduzir as desigualdades).

 

Simplesmente, a compatibilização dos objectivos não só não é automática – como se, por varinha mágica, reduzindo as desigualdades, passássemos todos a produzir mais – como, gerida por populistas, essa compatibilização passaria a ser impossível. Achar que o país pode voltar a crescer pelo apenas pelo aumento do consumo público e privado, pelo ataque aos ricos e pela redistribução da sua riqueza, ou pela nacionalização três ou quatro empresas, por muito estratégicas que sejam, é um nonsense.

 

Por muito que custe ao Bloco de Louçã, o papel de um Governo na criação de condições que permitam, no fim da linha, um aumento da produtividade será sempre limitado - não estamos na União Soviética dos anos 20, convém lembrar - se aquele não for capaz de fazer com pactos com o capital e com o trabalho: pactos pelo emprego, pelo investimento nas pessoas e na inovação, pela internacionalização, pela redução das desigualdades, etc.. E para fazer pactos, para haver um entendimento entre parceiros, é preciso sentar todos na mesma mesa e negociar: isto é, fazer política.

 

Louçã, que prefere alimentar a raiva contra os capitalistas, os “maus” – quem o ouve discursar pergunta se não estamos em 1909, em vez de em 2009; pergunta mesmo se viveu o mesmo século XX que todos nós -, não é apenas anti-capitalista. É também anti-político: afinal, tudo o que é política – diálogo, persuasão, compromisso - são “negociatas”, logo, corrupção. Não estranha, pois, que Louçã ache que o mundo está cheio de corruptos. Aqui, a semelhança entre a esquerda anti-capitalista e a direita anti-estatista é relevadora: ambas detestam a política porque esta envolve negociação e o compromisso entre representantes de mundos e ideologias diferentes. Para os puristas, o compromisso é inaceitável. Nenhum deles percebeu a mais elementar consequência do que é viver numa democracia representativa e numa economia mista.


Filipe Guedes Ramos a 31 de Agosto de 2009 às 01:56
Sim, concordo em absoluto.
Mas a estratégia do Louçã serviria, não para criar riqueza, mas para ir "tapando" alguma despesas.
Tem certa lógica a tributação elevada das grandes fortunas, bem como actualização apropriada de todos os escalões fiscais; porque quem ganha 1500€/mês não tem um nível de vida igual a quem ganha 4500€/mês, e no entanto participam os dois casos do mesmo escalão.
Há certos desajustes que, ao serem rectificados, só serviriam ao bem nacional.
Não quero com isto elogiar o Louçã: caciquismo tem limites...

Zé dos Reis a 31 de Agosto de 2009 às 15:03
Louçã tem toda a razão.
Américo Amorim, por exemplo,tem uma fortuna que além de ser considerada a maior de Portugal está avaliada em 2 mil e tal milhões de euros, digamos 3 mil milhões. Sacamos tudo ao homem, e dá 300 euros a cada português. Juntem-se mais uns poucos milionários e conseguimos, vendendo tudo o que lhe sacarmos, aí uns 2 ou 3 mil euros para cada um de nós, digam lá se não se resolvem todos os problemas sacando o bifando a massa dos ricos, heinn?
Ficamos pobres na mesma, mas ao menos já não há ricos para termos inveja.
Louçã não defende os pobres, está é preocupado com os ricos.

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