Por João Pinto e Castro | Quinta-feira, 27 Agosto , 2009, 22:40

 

 

Louçã defende na sua entrevista de ontem ao Jornal de Negócios a nacionalização da Galp e da EDP, e explica: "Pretendemos que os serviços estratégicos de energia e de comunicações sejam públicos." Se é essa a ideia, esqueceu-se de mencionar as empresas de telecomunicações, de transportes e de auto-estradas.

Mais adiante, porém, Louçã precisa o seu pensamento. Os grandes grupos portugueses estão acoitados em sectores onde não há (ou há pouca) concorrência. Ora, não faz sentido deixar à iniciativa privada sectores de monopólio natural. Simpatizo, com reticências, com esta linha de raciocínio.

Helena Garrido, a entrevistadora, pergunta então a Louçã se o problema não poderia resolver-se com regulação. Louçã troça da ideia: "Por amor de Deus. Regulação em Portugal?" Mais uma vez, entendo o que ele diz: o desempenho das entidades reguladoras não tem sido brilhante entre nós.

Noto, porém, sérias fragilidades no argumento.

Primeiro: nem a Galp nem a EDP são monopólios naturais (a REN, sim), logo, a justificação para nacionalizar essas empresas não tem cabimento.

Segundo: a objecção de Louçã à regulação é obviamente de fundo e não circunstancial. O que está em causa não são as debilidades da sua implementeção em Portugal, caso contrário Louçã proporia formas de melhorá-la - e não o faz.

Terceiro: Louçã presume, portanto, a superioridade da gestão pública sobre a privada em circunstâncias de fraca competição. Acontece que a longa experiência de que nós e outros países dispomos nesta matéria não autoriza esse optimismo beato. Às vezes (note-se: às vezes), a gestão pública funciona mesmo muito mal.

Louçã quer mobilizar os lucros da Galp e da EDP para pagar o défice orçamental, mas é bem possível que, sob gestão pública, parte significativa desses lucros desaparecesse em menos de um fósforo.

Não fica claro para que quer Louçã nacionalizar algumas empresas. Começa por insinuar uma motivação liberal: não há suficiente concorrência, e ele quer estimular o capital a deslocar-se para sectores mais arduamente competitivos.

Mas trata-se de uma falsa pista, como se torna claro quando ele rejeita a regulação. A lógica, então, parece ser submeter à gestão pública os chamados sectores estratégicos. E o que são sectores estratégicos? A banca (comercial e de investimento) não se enquadra nesse conceito? A indústria automóvel (Auto-Europa incluída), também não?

Trocadas por miúdos, as ideias de Louçã são tão consistentes como gelatina.
 


portela menos 1 a 27 de Agosto de 2009 às 23:10
pergunta:
Louçã deu essa entrevista enquanto leader do Bloco de Esquerda ou como membro da 4ª Internacional?

Eu acho que a gelatina é mais consistente do que a vossa honestidade intelectual.

João Pinto e Castro a 28 de Agosto de 2009 às 11:23
Não há na entrevista uma única afirmação do Louçã dirigente do Bloco de Esquerda que não pudesse ter sido feita pelo Louçã dirigente do PSR.

Augusto a 27 de Agosto de 2009 às 23:48
O Bloco de Esquerda tem DEZ ANOS, quando é que entendem isso, os simpatizantes do PS.

Será que tambem teremos no Simplex, a fotografia do Socrates com a bandeira da JSD em fundo....

João Pinto e Castro a 28 de Agosto de 2009 às 11:25
Como se prova pela entrevista, o Bloco de Esquerda é uma camuflagem trapalhona dos leninistas de sempre que não se resignam à democracia liberal. Quando é que entendem isto os apoiantes do BE?

portela menos 1 a 28 de Agosto de 2009 às 16:13
"Quando é que entendem isto os apoiantes do BE?"

- quando o ps e o psd nos explicarem o porquê de após 34 anos continuarmos na cauda da europa.

Augusto a 27 de Agosto de 2009 às 23:57
Mais algumas sugestões, para fotografias futuras no Simplex ;

A Ana Gomes, com a bandeira do MRPP
O Mario Lino e o José Magalhães com a bandeira do PCP
O Mariano Gago com a bandeira da UDP,
Já para não falar na Irene Pimentel tambem com a bandeira da UDP

João Pinto e Castro a 28 de Agosto de 2009 às 11:26
A denúncia está incompleta. Pode por-me a mim também na lista.

Carla a 28 de Agosto de 2009 às 00:07
É importante que não esqueçamos que, quando não estamos convictos do nosso voto, devemos comparecer na urna de voto votando em branco.
Só assim aquela percentagem de abstenções que ocorre sempre ( 40% a 60% ) se revela muito útil em contagem real.
E assim podemos expressar de forma legalmente VÁLIDA a nossa opinião, que deverá contribuir para mudar a nossa sociedade se assim o quisermos.

João Pinto e Castro a 28 de Agosto de 2009 às 11:27
Hoje não é dia de consulta.

Zé dos Montes a 28 de Agosto de 2009 às 09:57
Ora aqui está um post defensor do socialismo moderno, aquele sobre o qual Soares disse o seguinte "...socialistas neoliberais formados na "terceira via", uma verdadeira fraude intelectual..." http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1344047&seccao=M%E1rio%20Soares&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco para quem quer ler o artigo todo.

João Pinto e Castro a 28 de Agosto de 2009 às 11:28
Lá nos montes ideológicos onde este Zé vive não se sabe que o Soares é um socialista moderno.

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