Por Mariana Vieira da Silva | Quinta-feira, 27 Agosto , 2009, 01:00

A questão das qualificações dos portugueses faz parte, e bem, de todos os discursos de todos os partidos, nos últimos 35 anos. O diagnóstico é partilhado por (quase) todos, mesmo que as soluções apresentadas para superar este problema sejam muito diferentes. Portugal tem um problema citado por todos – uma elevadíssima % de jovens (18 aos 24 anos) que saiu da escola da escola sem completar o ensino secundário. Era cerca de 39% em 2006 (36 agora), o dobro da média da UE. Mas permanecia um outro problema, muito mais grave, até porque absolutamente excepcional na Europa em que nos inserimos: segundo os censos de 2001, 26% dos jovens entre os 18 e os 24 anos não tinha completado o ensino básico (9.º ano). Quer isto dizer que 1/4 dos jovens, apesar de cumprir a escolaridade obrigatória não terminava o ensino básico (a lei de bases fixava a obrigatoriedade de frequência da escola até completar o 9.º ano OU até aos 16 anos). São milhares de jovens(cerca de 25 000) que entraram no mercado de trabalho sem terem adquirido os conhecimentos considerados mínimos.

 
Os dados divulgados na passada segunda-feira mostram-nos uma coisa importantíssima que quase não vi referida: este ano terminaram o 9.º ano mais de 121 000 jovens (mais 10 000 que a coorte etária faria chegar ao 9.º ano). Os dados apresentados mostram que, pela primeira vez, os alunos terminam efectivamente a escolaridade básica definida em 1986.
 
Esta é uma marca da governação, um resultado das políticas educativas desenvolvidas - cursos CEF, diversificação das ofertas formativas, apoio ao estudo e planos de recuperação. Mas é, antes disso, um resultado que cumpre a ambição da lei bases do sistema educativo e que, por isso, devia satisfazer todos aqueles que a defenderam e que agora se preparam para concretizar os 12 anos de escolaridade para todos os alunos.

Joaquim Amado Lopes a 27 de Agosto de 2009 às 12:39
E uma distribuição estatística dos que terminaram o 9º ano pelo número de negativas, é possível?
Mesmo ignorando que muitas notas são alteradas administrativamente, o resultado devia ser interessante.

E, considerando o Estatuto do Aluno e a forma como a avaliação é feita, acha mesmo que todos os que terminam o 9º ano adquiriram "os conhecimentos considerados mínimos"?
A propósito de "conhecimentos considerados mínimos", esses mínimos são iguais aos de há 10 anos ou foram "ajustados"?

Mariana Vieira da Silva a 27 de Agosto de 2009 às 13:33
1. Não conheço dados com distribuição do número de negativas.
2. Notas alteradas administrativamente? Alteradas por quem, exactamente?
3.Eu não "acho" nada. Há programas aprovados, provas de aferição ao longo do percurso, exames no final do ciclo. E há professores que ensinam e avaliam os seus alunos. Não me parece que os programas tenham deixado de ser cumpridos, nem que os professores tenham deixado de ensinar e avaliar.
4. Os programas mudaram ou, como refere, foram "ajustados" há cerca de 10 anos, sim. Estão lá, por exemplo, competências informáticas que lá não estavam.
5. Não me revejo no discurso de que cada vez se sabe menos. Não é isso que mostram estudos como o PISA, nem a presença dos jovens portugueses em cada vez mais instituições de ensino superior pelo mundo fora.
6. E, sim, tenho orgulho que se tenha conseguido ultrapassar um problema que, esse sim, constituía um factor de atraso do nosso país e uma limitação radical nas oportunidades de vida dos jovens: 25000 jovens que saiam da escola sem terem cumprido o ensino básico.
7. Se tenho saudades do "ensino de qualidade do antigamente" que fazia depender essa qualidade da exclusão da maior parte dos alunos. Nenhumas.

Joaquim Amado Lopes a 27 de Agosto de 2009 às 15:15
1. É claro que não conhece. Nem esses números são divulgados pelo Ministério da Educação porque fariam ruir a ficção estatística que tem sido construída nos últimos anos.
Já agora, procure no Google por "Cem passaram com 8 negativas".

2. As notas são alteradas administrativamente quando o professor atribui uma nota ao aluno e esta é revista tendo em consideração factores como a situação familiar e social do aluno.

3. Boa resposta. É como dizer "o crime diminui" e, quando alguém aponta "mas uma série de actos que antes eram considerados crime deixaram de o ser", responder "não me interessa; as Leis são as que são, a polícia e os tribunais continuam a funcionar".

A sua resposta reflecte exactamente a abordagem do Governo: "é mau haver muito insucesso escolar portanto temos que o reduzir; para o conseguir fazem-se exames mais fáceis, os alunos passam a transitar de ano mesmo com mais negativas do que antes, arranja-se forma de mesmo quem tenha muitas negativas possa transitar de ano, criam-se dificuldades aos professores que mesmo assim achem que alguns alunos devem chumbar e compromete-se os professores não com quanto os seus alunos aprendem mas sim com quantos transitam de ano".
Fazer programas melhores, formar melhor os professores e dar-lhes mais autoridade, responsabilizar mais os alunos e valorizar o trabalho e a excelência não porque os resultados podem ser o de, mesmo com os alunos a aprenderem mais, serem mais os chumbos.

4. E os "ajustes" foram no sentido de melhorar os programas e ajustá-los às novas competências ou de baixar o nível de forma a ajustar aos objectivos estatísticos?

5. Acha então que, em média, os alunos que saiem agora do segundo ciclo sabem mais do que sabiam os que sairam do liceu há 10 ou 15 anos?
E sabem mais no geral ou sabem menos de tudo mas sabem de coisas que naquela altura não estavam disponíveis para serem aprendidas?

6. E o problema é esse. É haver alguém quem tenha orgulho que se cumpra o ensino básico, independentemente do que se aprenda nesse período.
Ao contrário da Mariana, para mim o problema maior não é quanto tempo anos se faz de escola mas o que se faz e aprende nesses anos.

7. Está muito enganada no que era "antigamente". Antigamente, a qualidade do ensino dependia da exigência de trabalho e da valorização do mérito. O chumbo é uma ferramenta essencial da exigência. Senão, é como ter eliminatórias em que todos são apurados.

Com o que escreveu, deduzo que vá votar PS nestas eleições. Faz bem. Deve votar no partido que lhe garanta o país que quer e que acha que merece. Como parece querer um país de ilusões e em que se nivela por baixo, o PS é o partido certo para si.

Não sou como alguns que acham que um determinado partido tem "obrigação" de ganhar. Para mim, ganha sempre o partido que merece ganhar porque foi esse que os eleitores escolheram.
Cada partido tem a obrigação de apresentar o projecto que acha mais correcto, independentemente do que os eleitores prefiram.

Gostava de acreditar que os eleitores não querem um país de faz-de-conta mas o que eu desejo não interessa. Dentro de um mês saberemos que tipo de país os eleitores querem.

Joana Silva a 27 de Agosto de 2009 às 13:47
Qual é o "problema" do Estatuto do Aluno? É impedir que os alunos se afastem progressivamente da escola? Isso "encobre" o insucesso ou, ao invés, obriga-os a trabalhar mais?

Joaquim Amado Lopes a 27 de Agosto de 2009 às 14:28
Da forma que construiu a pergunta parece que, para si, a resposta é "obriga-os a trabalhar mais". Não é assim, pois não?
Ou a Joana está completamente desligada da realidade das escolas?

Joana Silva a 27 de Agosto de 2009 às 15:53
Engraçado, ia jurar que era o que diz a lei. Ou vai dizer-me que os professores não cumprem a lei?

Joaquim Amado Lopes a 27 de Agosto de 2009 às 18:35
Em primeiro lugar, quando o desempenho do aluno é pesado com a sua situação familiar e social, o objectivo claro não é obrigar o aluno a trabalhar mais.

Em segundo lugar, o Estatuto do Aluno não obriga o aluno a trabalhar mais, obriga os professores a trabalhar muito mais. E ainda mais se acharem que um aluno deve chumbar.
Na realidade, o Estatuto do Aluno permite-lhe trabalhar muito menos, obter resultados muito mais baixos e, mesmo assim, transitar de ano. Veja-se o número de casos de alunos que transitam de ano com 7,8 ou 9 negativas.

O detalhe a 27 de Agosto de 2009 às 13:07
"Os dados divulgados na passada segunda-feira mostram-nos uma coisa importantíssima que quase não vi referida: este ano terminaram* o 9.º ano mais de 121 000 jovens"

Terminaram significa que frequentaram. Certo? Não significa que tenham sido avaliados e aprovados.

Mariana Vieira da Silva a 27 de Agosto de 2009 às 13:19
Terminaram significa que concluíram o 9.º ano (avaliados e aprovados, naturalmente). Os matriculados foram cerca de 139000.

O detalhe a 27 de Agosto de 2009 às 17:27
eu sabia :). Também vou criar um blouqe a elogiar o meu patrão e o meu trabalho ... obrigado pela ideia

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