Por Tiago Julião Neves | Sábado, 22 Agosto , 2009, 16:41

Aparentemente o meu post anterior suscitou a alguns a ideia de que a aposta nas energias renováveis nos isenta de investir na redução dos consumos supérfluos ou na aposta em larga escala na eficiência energética. Nada mais errado! Estes são aspectos absolutamente prioritários que devem ser incentivados em conjunto com as energias renováveis e a alteração de comportamentos se quisermos ter o vislumbre de um futuro sustentável.

 

Se as apostas específicas deste governo na área das renováveis foram as melhores ou se os níveis de subsidiação foram os mais adequados são questões demasiado complexas para debater num único post. Certamente houve opções menos felizes, mas parece-me fundamental que o governo PS tenha efectuado uma escolha em prol das energias renováveis, face a cenários alternativos como o nuclear ou a proliferação de centrais dependentes de combustíveis fósseis. Convém também compreender se as críticas mais acérrimas têm por base os méritos ou deméritos das opções técnicas aprovadas, ou os interesses que favorecem ou contrariam.

 

A aprovação de legislação exigente sobre eficiência energética para os edifícios novos é um passo fundamental para reduzir o desperdício, mas é igualmente crucial apresentar uma estratégia ambiciosa para a reconversão do parque habitacional existente. O apoio a soluções do tipo fotovoltaico e solar-térmico ao nível residencial podem ter aqui um papel muito importante, que é reforçado pelo facto de uma central solar fotovoltaica não ter ganhos de eficiência significativos face à mesma capacidade instalada em residências. Significa isto que os projectos das centrais fotovoltaicas de Serpa e da Amareleja (as maiores do mundo) são aventuras megalómanas? Penso que não, porque a importância destas centrais extravasa em muito a relevância da energia efectivamente aí produzida: são projectos de marketing nacional que colocam Portugal no mapa das energias renováveis e na linha da frente de um sector que movimenta biliões de euros e cresce a um ritmo exponencial. 

 

No campo oposto temos aqueles que advogam que o nuclear é uma opção imprescindível que não nos podemos dar ao luxo de recusar num futuro próximo, e que tem em Patrick Monteiro de Barros o seu mais acérrimo defensor.

Não poderia discordar de forma mais veemente dos que defendem que o nuclear é uma tecnologia barata, limpa e segura. Mas vamos aos factos:

 

1) Rejeito liminarmente a solução nuclear porque considero que o risco probabilisticamente mínimo mas potencialmente devastador de um acidente nuclear não é aceitável numa sociedade civilizada. Windscale rebaptizado Sellafield em Inglaterra, ou Three Mile Island nos EUA são exemplos de acidentes nucleares graves (com destruição ou fusão parcial do núcleo) em potências ocidentais, o que comprova que Chernobyl não é caso isolado nem exclusivo de uma URSS em declínio. Acresce que o secretismo em caso de acidente dá reduzidas garantias à sociedade civil de dispor da melhor informação para lidar com uma ocorrência grave.

 

2) A ausência de uma solução para a questão dos resíduos radioactivos é outro argumento decisivo para rejeitar esta tecnologia. Além de se poluir o planeta por milhares de anos, estamos a transferir para as gerações futuras um grave prejuízo ambiental e económico a troco da produção de energia no presente (para a qual existem várias e melhores alternativas), o que constitui uma grave violação do princípio de ética intergeracional. Existe também o risco de se fomentar o circuito criminoso de tráfico internacional de resíduos perigosos onde invariavelmente os resíduos perigosos dos países ricos encontram sepultura em países económica ou democraticamente mais frágeis.

 

3) O nuclear está longe de ser uma tecnologia limpa, basta considerar as emissões associadas à mineração e enriquecimento do urânio, à construção das centrais, e ao transporte, processamento e armazenamento dos resíduos radioactivos. Não é necessário invocar Chernobyl para demonstrar o logro deste argumento, basta efectuar uma análise rigorosa ao ciclo de vida de uma central nuclear para o argumento das reduzidas emissões de CO2 se tornar logo menos atraente.

 

4) A percepção de que o nuclear é uma tecnologia barata é outra ideia peregrina, pois além de ter beneficiado de milhares de milhões de euros de apoios da União Europeia durante décadas (contra apoios ridículos para as renováveis), existem estudos do MIT  que comprovam a existência regular de elevadíssimas derrapagens no custo de construção das centrais e que são tipicamente suportados pelos consumidores e contribuintes. Acresce que os elevadíssimos custos de desmantelamento das centrais raramente são suportados pelos consórcios privados que as construíram e que delas beneficiaram, e acabam por cair sobre os ombros dos contribuintes.

 

5) O nuclear é uma tecnologia madura onde é muito mais difícil Portugal conseguir inovar, além de que não dispomos de vantagens competitivas face a potências nucleares como a França ou os EUA. Portanto ao contrário das renováveis, a aposta no nuclear não trará significativas mais-valias em áreas associadas nem potenciará a criação de um cluster tecnológico estratégico.

 

6) O processo completo de construção de uma central nuclear desde a fase de discussão pública até à entrada em produção regular demora entre 10 a 15 anos, incompatível portanto com a necessidade urgente de reduzir as emissões de CO2 a muito curto prazo.

 

Arrumada a questão do nuclear gostaria de me voltar para algumas críticas que dizem que as renováveis têm pouco impacto no combate à dependência energética do país. O facto de grande parte da dependência energética de Portugal advir do sector dos transportes não significa obviamente que investir em energias renováveis seja um erro. Claro que seria interessante pensar a prazo no encerramento de centrais muito poluentes como a de Sines (a carvão), mas esse é um cenário ainda longínquo e parece-me óbvio que se não houvesse aposta nos renováveis as nossas importações de combustíveis fósseis teriam de compensar essa fatia.

 

Em suma, à esquerda e à direita atropelam-se os que tentam diminuir o mérito da aposta nas energias renováveis. Desde os desacreditados apoiantes do nuclear até aos ecologistas mais radicais, que sofrendo de uma profunda incoerência ideológica são contra o nuclear mas também se opõem às barragens e aos parques eólicos que nos permitem rejeitar a primeira e mais nefasta opção.

 

A urgente resolução da questão energética pede mais honestidade intelectual e menos utopia demagógica. E como coerência e honestidade não impedem sentido crítico deve-se continuar a denunciar situações onde se verifique a criação de rendas desnecessárias, o mau ordenamento na construção de parques eólicos, e qualquer outro caso que venha a afectar negativamente a boa execução de uma correcta aposta nas energias renováveis.

 

Para terminar apenas uma breve nota sobre a importância de reconhecer a existência de limites ao crescimento e sobre o grave problema da sacralização da tecnologia que são assuntos conexos com a problemática energética e sobre os quais falarei num próximo post:

 

Limites do crescimento

A adopção de um novo paradigma de sustentabilidade implica que a sociedade aceite a existência de limites ao crescimento, o que em última análise poderá levar a uma estratégia de decrescimento sustentado.

 

Sacralização da tecnologia

A sacralização da tecnologia na sociedade ocidental desde a segunda metade do séc. XX resulta de uma fé exagerada na ciência, que é perversa na medida em que serve para escamotear à necessidade de alterar hábitos insustentáveis profundamente enraizados na sociedade ocidental.


henrique pereira dos santos a 22 de Agosto de 2009 às 21:20
Caro Tiago Julião,
Gosto de ver a sua opção clara no que diz respeito à energia nuclear.
Infelizmente ela não coincide com a do Partido Socialista que no programa para os próximos quatro anos se recusa a assumir seja que posição for em relação ao nuclear.
Gosto também de ver a sua lucidez referindo que não há política energética sustentável sem políticas sérias de eficiência energética.
Infelizmente ela também não coincide com a posição deste Governo, que durante quatro anos a única coisa que fez nesta matéria foi legislar de forma a que daqui a muitos anos, se os regulamentos forem cumpridos, se tenha algum benefício.
Gosto da sua clareza em classificar as centrais fotovoltaicas, da dimensão que têm, como opções de marketing.
Infelizmente o Governo não só não tem a mesma clareza, como se recusa a discutir o preço para a economia que representam, para se poder discutir seriamente se os objectivos de marketing estão ajustados ao preço que custam.
Enfim, estou verdadeiramente de acordo consigo: "A urgente resolução da questão energética pede mais honestidade intelectual e menos utopia demagógica."
Infelizmente o actual Governo discorda de nós dois.
henrique pereira dos santos

Catarina Roseta Palma a 2 de Setembro de 2009 às 17:37
Faltou também referir nalgum sítio a infeliz aprovação por este governo do Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico, como forma de aumentar a % de renováveis e reduzir o CO2. Nem o ambiente se resume às emissões de CO2 (então e a biodiversidade?) nem as grandes barragens são isentas de emissões, devido ao material em decomposição que contém...

Tiago Julião Neves a 4 de Setembro de 2009 às 05:05
Agradeço os comentários ao Henrique e à Catarina, mas discordo dos argumentos apresentados.

No programa do PS não há qualquer referência à energia nuclear e há dezenas de referências às energias renováveis e à eficiência energética. A estas referências juntam-se medidas concretas bem como as que foram tomadas nos últimos 4 anos. Acresce que já ouvi o PM recusar a opção do nuclear em duas ocasiões, a última em directo na BlogConf (http://eleicoes2009.info/legislativas/blogconf/).

As centrais são não apenas, mas também, uma excelente operação de marketing. A subsidiação da energia solar é necessária para criar escala numa fase inicial, e os subsídios deverão ser revistos à medida que o peso do solar aumenta no mix energético, que a tecnologia evoluí e os custos diminuem.

Claramente o ambiente não se resume ao CO2 e a referência aos "peixinhos da horta" é uma mera provocação aos excessos do movimento ecologista. Considero que em Portugal se cai demasiadas vezes numa posição ecológica extremista que rejeita qualquer compromisso e se refugia num cenário ideal e irrealista. Penso que convém não perder de vista a big picture e apesar de não conhecer em pormenor os planos das barragens nem as previsões sobre a produção de metano, considero da maior importância aumentar a produção de energia com recursos próprios renováveis, reduzindo a parcela dependente de combustíveis fósseis importados.

Quero acentuar que temos de fazer escolhas e que a rejeição ou o contínuo adiar dessas escolhas raramente são benéficas. Se o investimento em renováveis dificilmente cobre o crescimento da procura, então sem as barragens será necessário efectuar outras apostas. Qual seria então o caminho a seguir na vossa opinião? Obrigado.

José Silva a 22 de Setembro de 2009 às 18:06
Olá Tiago

Os teus posts fazem um bom apanhado do que têm sido as políticas deste governo em termos energéticos. No entanto quero fazer alguns reparos.

A política energética deste governo foi baseou-se na implementação do programa E4 elaborado em 2001 pelo guru da Energia Eduardo Oliveira Fernandes. Este programa foi aprovado pelo governo Guterres pouco antes deste governo cair e consistia em apostar na eficiência energética e nas energias endógenas de Portugal. Depois da queda desse governo passaram quatro longos anos até que fizesse alguma coisa na área da eficiência energética e das energias renováveis.
O programa E4 é muito bom só é mesmo pena que não tivesse sido implementado em 2001 ou mesmo em 1991.
Mas enfim mais vale tarde que nunca, hoje os edifícios têm certificações energéticas, há um programa de apoio à energia solar térmica e solar fotovoltaica e os parques eólicos espalharam-se por todo o país. Sem dúvida que nesta área se avançou muito nos últimos anos, embora também se tenham cometido alguns erros.
Por exemplo Sócrates foi levado pelo entusiasmo dos biocombustíveis, uma aposta enganadora que não resolve nenhum problema e ainda põe em causa a sobrevivência de milhões de pessoas ao fazer disparar os preços dos bens alimentares. Em boa hora a opção dos biocombustíveis foi relegada para segundo plano. Sócrates errou ainda ao promover e subsidiar como se funcionasse a energias renováveis uma bomba de calor alegadamente solar, que funciona ligada à corrente eléctrica.
A aposta no carro eléctrico foi outra aposta importante deste governo. O carro eléctrico vai contribuir para a redução das emissões de CO2 do país, reduzir a poluição nas cidades e vai também certamente diminuir a factura energética do país. Aqui felizmente o governo conseguiu emendar o grave erro que esteve quase a cometer, construir uma rede de abastecimento dos carros eléctricos que só seria compatível com os carros Nissan a construir em Portugal, estando a agora ser construída uma rede com ligações universais em que podem abastecer todos os carros a electrões.

Relativamente às barragens considero que a emissão de CO2 provocada pela sua construção é um mito. A única coisa que a acontece quando se constrói a barragem é a morte prematura de alguma matéria orgânica que provoca a emissão de metano. Mas como é evidente todo o que vive tem que morrer, essa matéria orgânica morreria e seria decomposta mais tarde ou mais cedo, com ou sem barragens, não resultando por isso qualquer aumento de emissões de metano devido à construção da barragem.
O maior problema da construção de barragens é a destruição de habitats e a consequente diminuição da biodiversidade. Este é de facto um problema sério que não deve ser menosprezado. A cada construção de barragem está associada a perda de um habitat natural que é nalguns casos único. Eu por exemplo discordo da posição dos últimos três governos (Durão, Santana, Sócrates) relativamente à barragem do Sabor. O rio Sabor é uns últimos rios selvagens da Europa e por isso deveria ser preservado. A União Europeia tem bloqueado o financiamento da construção desta barragem por isso mesmo, mas temo que acabará por ceder à teimosia portuguesa. Esta é uma matéria em que eu gostava que José Sócrates mudasse de opinião.
Há quem diga que no plano hidrológico nacional, a barragem do Sabor substitui a barragem do Foz Côa, havendo necessidade de construir a primeira pela desistência da segunda. Se me fosse dado a escolher entre a submersão do habitat selvagem do Sabor e o parque arqueológico de Foz Côa eu não teria dúvidas em optar pela segunda isto é construir a barragem de Foz Côa e salvar o rio Sabor.

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