Por João Galamba | Sexta-feira, 21 Agosto , 2009, 02:42

1- Sobre o "watergate-português", Manuela Ferreira Leite disse "Eu não quero saber se há escutas ou não, eu não quero saber se há retaliações ou não, o que é grave é que as pessoas acham que há" Por outras palavras, não interessa se a suspeita tem ou não fundamento; basta que a suspeita exista. É a política da verdade...intuida. Ferreira Leite não sabe, nem está preocupada em saber a verdade. Basta sentir — ou melhor, basta que os outros sintam. Deve ser isto que Ferreira Leite tem em mente quando diz que quer fazer política com as pessoas. Isto é puro populismo. E é preocupante;

 

2- A verdade de Ferreira Leite é que o PS está errado. A verdade de Ferreira Leite quase que cabia numa página A4. Quando confrontada com o conteúdo positivo da sua verdade, Ferreira Leite termina com algo mais ou menos assim: "a minha verdade não vai surpreender ninguém porque apesar de todos dizerem que eu não digo nada eu já disse tudo". Não perceberam? Eu também não. E fiquei ainda mais baralhado quando disse que as medidas de Sócrates são um desastre vindo depois dizer Sócrates copia todas as suas ideias. Baralhadíssimos? Pois;

 

3- (Advertência: esta é complicada). A verdade económica de Ferreira Leite é que os números do crescimento da Alemanha e da França são verdadeiros e que isso é bom porque mostra que a crise pode estar a passar. Já o crescimento económico português é irrelevante porque os números são meras realidades estatísticas sem qualquer significado. Por outro lado, os números Portugueses até são verdadeiros (?) só que isso é causado pela performance "lá de fora" e não por qualquer medida do actual governo. (Calma, isto ainda não acabou). Por outro lado, os números do desemprego português  são super importantes e devem ser interpretados independentemente do mundo (coisa pouca) estar a passar pela maior crise económica desde a grande depressão. Que o desemprego tenha disparado em todos os países é irrelevante. Para Ferreira Leite só interessa uma coisa: Portugal tem a maior taxa de desemprego dos últimos 30 anos. Ficamos a saber que, apesar de ser inflexível nos princípios morais, pratica uma hermenêutica varíavel em tudo o resto, não porque a realidade assim o exige, mas simplesmente por que lhe dá jeito;

 

4-Ferreira Leite acha que a estratégia de desenvolvimento económico deve centrar-se exclusivamente numa redução dos custos do trabalho, isto é, numa redução de impostos como a taxa social única e o IRC. Mas é preciso dizer que essas medidas não implicam necessariamente um crescimento dos salários nem uma redução do desemprego; implicam, apenas e só, que as empresas passam a ter custos mais baixos. Não digo que isto não seja importante, mas não chega: Portugal não tem futuro enquanto insistir em competir em preços baixos; é preciso investir, diversificar, apostar em produtos de elevado valr acrescentado, etc. Para que a proposta de Ferreira Leite constitua uma verdadeira estratégia de crescimento, torna-se necessário acreditar (sentir?) que, no contexto actual, uma redução de impostos constitui um incentivo ao investimento privado — num cenário de quase deflação, isto é pouco provável.  Outra coisa muito importante é o facto de Ferreira Leite ter dito que não fará apostas sectoriais; limita-se propõe redução de impostos para todas as empresas. Esta descida de impostos - igual para todas as empresas - não contribui em nada para a requalificação do tecido produtivo, pois, ceteris paribus,  deixa os incentivos dos agentes - os incentivos entre investir e poupar, entre produzir o bem x ou y - inalteradas. Ora, se Ferreira Leite quer inverter a actual tendência da economia país, o que requer uma alteração de paradigma, não se percebe em que medida é que uma descida sem critérios qualitativos contribui para tal desiderato. (esta merece um tratamento mais aprofundado noutros posts);

 

5-Sobre o caso António Preto, Ferreira Leite não fala. E não fala porque os seus princípios elevadíssimos não lhe permitem comentar casos de justiça (apesar de não parecer ter qualquer problema quando são outras pessoas do seu partido a fazê-lo, como aconteceu com o discurso de Aguiar Branco no Pontal). Ferreira Leite diz que os seus — os seus! — princípios são absolutamente inflexíveis e não admitem qualquer tipo de ponderação ou juízo. Em linguagem técnica acho que isto se chama fanatismo e cegueira moral. Ao contrário do que defende Ferreira Leite, a inflexibilidade dogmática não é uma virtude. Aqueles que acham que os princípios gerais não precisam de ser aplicados a casos concretos abandonou a faculdade de julgar. Ferreira Leite diz que o mais difícil é não abandonar os seus princípios — está enganada. O mais difícil é saber interpretar o caso concreto.  O mais difícil é saber ajuizar de acordo com aquilo que a realidade exige.

 

6- Ferreira Leite admite que se exprime mal e que às vezes declarações que parecem disparatadas, mas isso deve-se ao seu desprezo pelo Power Point e pelas técnicas modernas de comunicação. Ferreira Leite é como as pessoas comuns. A sua verdade é a verdade das pessoas concretas. E eis que Ferreira Leite termina da mesma forma que começou: populista;

 

Voltarei, obviamente, a alguns destes temas.


José Barros a 21 de Agosto de 2009 às 04:25
Sócrates disse que não comentava "disparates de Verão".

É legítimo então deduzir que também não está interessado em saber se houve escutas ou não. Em particular, parece também evidente que o PM também já intuíu a resposta à questão, o que se retira da fórmula da desqualificação da mesma como disparate de Verão. Pois é: chato quando as palavras nos atraiçoam e se transformam em plasticina nas mãos dos spin-doctors.

jeronimo a 21 de Agosto de 2009 às 09:51
Penso que há aí uma grande diferença que lhe deve ter escapado. Sócrates desvalorizou o assunto e implicitamente retirou todo o crédito a quem (artificialmente) o criou. MFL acha que é grave haver insinuações mas não tem qualquer interesse na sua autenticidade. Isto é o grau zero da responsabilidade e da seriedade. E quanto à questão da Verdade, estamos conversados.

José Barros a 22 de Agosto de 2009 às 04:48
Sócrates desvalorizou o assunto e implicitamente retirou todo o crédito a quem (artificialmente) o criou - jerónimo

Precisamente, fê-lo antes de se esclarecer se as suspeitas têm fundamento ou não. O que demonstra que não quer ser esclarecido, à semelhança da postura que o post critica.

João Galamba a 21 de Agosto de 2009 às 11:20
Quem deve esclarecer os portugueses é a Presidência e não o PS. Vejo que o José Barros gosta de inverter o ónus da prova

David Fernandes a 21 de Agosto de 2009 às 16:21
Claor que é.

O poeta Alegre acha o mesmo; embora concorde com Jerónimo de Sousa quando diz que é um assunto sem substância.

Lá está: o poeta acha que o PR se deve pronunciar sobre assuntos sem substância.

Sol na eira e chuva no naval é, afinal, possível.

David Fernandes a 21 de Agosto de 2009 às 16:45
Isto é: nabal, claro. Naval é o da Figueira da Foz, cidade que causa pesadelos ao João Galamba. Peço desculpa.

João Galamba a 21 de Agosto de 2009 às 16:59
Explique lá isso da Figueira da Foz, sff

David Fernandes a 21 de Agosto de 2009 às 17:15
Não é uma insinuação; é uma graça, relaxe.

Se desligar o modo "lebre assustada", vai perceber a graça, ou, vá lá, a tentativa de graça.

José Barros a 22 de Agosto de 2009 às 04:46
É a Presidência que tem de esclarecer. Mas o Primeiro-Ministro, com o seu comentário, dizendo que se tratava de um disparate de Verão, mostrou que não tem interesse em ser esclarecido. Nisso não se diferenciou daquilo que o post critica. É esse o ponto.

Francisco a 21 de Agosto de 2009 às 11:23
Caro José Barros mas você tem dúvidas que não houve quaisquer escutas? Mas será que você acredita que Cavaco Silva é um palerma de tal forma cobarde e merdoso que não tenha capacidade para lidar com um assunto desse calibre?

Bruno a 23 de Agosto de 2009 às 00:03
Não sei o que o José Barros pensa, mas cá para mim o modo de actuar de Cavaco Silva nos últimos tempos não fica muito longe disso

Gonçalo a 21 de Agosto de 2009 às 10:18
O João Galamba diz isto porque não tem Certificados de Aforro. Seu invejoso!

Rui a 21 de Agosto de 2009 às 10:19
Caro João Galamba, você considera mesmo que é censurável se algum assessor do Cavaco tiver participado nalguma reunião para o programa do PSD? Que julga você que faziam os assessores de Soares e de Sampaio? Qual o objectivo dos ideólogos dirigentes do PS que levantaram esta "lebre" ?

Francisco a 21 de Agosto de 2009 às 11:26
Caro Rui diga-me terá sido incompetência o PSD ter anunciado a colaboração, ou terá sido incompetência fugir para a toca quando o PS apontou o dedo?

Rui a 21 de Agosto de 2009 às 13:11
Caro Francisco,

Não respondo, não porque seja mal educado mas porque o meu interesse é avaliar quem faz chicana política, intriga e propaganda, ou quem trabalha com base na realidade nos números e nos factos. Creio mesmo que os militantes socialistas dentro em breve descobrirão que vale mais trabalhar com a realidade.

Francisco a 21 de Agosto de 2009 às 14:51
Ainda bem que prefere lidar com a realidade. Convido-o a abdicar dos slogans.
E, se quiser, pode dar uma olhada à 'lebre' que eu vejo neste conto do assessor anónimo. Dê um salto ao blog com ligação no meu nome. Cpmts

Antonio Ingles a 21 de Agosto de 2009 às 11:12
Mas afinal o PSD não acredita na "Politica de Verdade"?

http://www.politicadeverdade.com/?idc=1102&idi=4447

É o proprio PSD que o diz... não é preciso fazer escutas...

David Fernandes a 21 de Agosto de 2009 às 16:17
Caro João Galamba

Um exercício simples: imagine que mostra a entrevista e este seu post a um cidadão comum, que saiba ler e que, coisa imprescindível, viva neste país.

Qual dos dois (entrevista, post) acha que esse cidadão compreendeu melhor?

Ah; já sei: dizer coisas que o povo entende, chama-se populismo.

PS: Sobre problemas de expressão, diga-me: reviu a sua primeira actuação naquele programa em que foi substituir o Tavares europeu? Não parece.

felizberto alegre a 21 de Agosto de 2009 às 16:36
é preciso não esquecer a ultima pergunta, que segundo a judite "foi uma pergunta linda, não foi?"

NetKingCool a 21 de Agosto de 2009 às 22:13
a sua analise esta muito pobre
tinha-o em melhor conta

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