Por Miguel Vale de Almeida | Terça-feira, 18 Agosto , 2009, 12:02

Carlos Jalali, em Partidos e Democracia em Portugal, explica como, na sequência do 25 de Novembro, a escolha de regime (revolução ou democracia liberal) foi crucial na constituição do sistema partidário tal como o conhecemos, com a linha divisória entre a esquerda e a direita estabelecendo-se mais entre o PS e os partidos à sua esquerda, do que entre o PS e o PSD, e com uma diferenciação insuficiente entre estes dois, criando um eleitorado centrista preocupado com questões políticas de curto prazo. Fenómeno PRD à parte, este sistema só seria abalado com o surgimento do Bloco de Esquerda que, nos seus primeiros anos ocupou o espaço da afirmação de valores que recusavam simultaneamente o centrismo e a ortodoxia comunista. Outras afirmações de valores progressistas e de fuga ao centro surgiram mais recentemente, quer dentro do PS (veja-se Manuel Alegre), quer em movimentos de cidadãos (em torno de Helena Roseta, por exemplo). Mas fica-se com a sensação, hoje, de que estes desenvolvimentos foram engolidos pelo vortex do sistema partidário novembrista, resumindo-se a lutas de facção dentro do PS ou, no Bloco, ao triunfo do populismo, da recusa do exercício do poder e à marginalização do contributo da componente mais moderada (e a que pertenci), a Política XXI . É certo que tudo isto se passou ao mesmo tempo que os erros da terceira via; e à cedência de partidos socialistas e social-democratas ao bulldozer neo-liberal. Mas neste momento histórico de crise do neo-liberalismo, de ressurgimento de uma política dos valores progressistas (de que Obama é um sinal) ou, aqui em casa, do regresso do cavaquismo via Ferreira Leite, é necessário empurrar a linha divisória esquerda-direita para o espaço entre PSD e PS. O potencial está lá: o programa do PS reflecte valores progressistas e é justamente o carácter catch all do PS que obriga a que seja nele, no seu espaço eleitoral, que se reforcem políticas e retóricas progressistas. Felizmente o PSD ajuda: não conseguindo melhor do que ressuscitar a antiga ministra cavaquista da educação e das finanças, define-se à direita da linha divisória. Trinta e tal anos (!) depois do 25 de Novembro não me interessa (e muito menos às gerações jovens) saber se a escolha é entre revolução ou democracia liberal, mas sim entre fazer ou não reformas com base em valores progressistas: que permitam que mais gente viva melhor, com mais igualdade de oportunidades, mais direitos, liberdade e cosmopolitismo. Tudo o que o cavaquismo não quer prometer, tudo o que o populismo não pode fazer. (Publicado no Diário Económico, 17 Agosto 2009)


Carlos Vidal a 18 de Agosto de 2009 às 15:22
Não, dê você as voltas que der, a linha divisória não é a que pensa: a linha divisória é (quanto ao que chama de progressismo global - a questão LGBT não é critério único) PS-PSD-CDS de um lado, BE-PCP/PEV (ou CDU) do outro.
Publique este comentário e pare de se justificar.
Conheço muita gente do PS que não anda nesta azáfama culpabilizada a justificar-se.
E as linhas divisórias como esta não se "empurram".

Miguel Vale de Almeida a 18 de Agosto de 2009 às 19:51
"Pare de se justificar". É extraordinário. Porque não diz "pare de argumentar"? Você detém a verdade sobre onde se estabelecem as linhas divisórias porque vive dependente de uma Teoria erigida em fundamentalismo religioso. Os outros estão errados, no duplo sentido; interpretam mal e crêem mal.Foi assim que no passado todas as insanidades foram justificadas pelo objectivo final do estabelecimento da Verdade. (E não, nem sequer estava a pensar em questões LGBT, veja lá você....)

ds a 18 de Agosto de 2009 às 20:43
Este post só teria sentido se o Pinto de Sousa fosse representativo de algum movimento de renascimento da esquerda em geral e de combate ao neoliberalismo. Mas não é, sendo antes o contrário, pois a «esquerda» moderna é apenas a «esquerda» que assimilou os princípios «modernos» do neoliberalismo. Como é evidente a crise não veio ajudar nada esta nova «esquerda» submissa à dita «nova» ordem. Mas como é uma «esquerda» especialista na propaganda e na manipulação, tratou de recuperar à pressa ideias «pré-modernas» como é exemplo a de um Estado mais forte e não mínimo, ainda que durante estes 4 anos o Pinto de Sousa tenha andado a «reformar» o Estado precisamente no sentido oposto: no sentido da «modernidade», diz a mesma propaganda.
Portanto, é escusado andarem a atirar mais areia para os olhos das pessoas: se há algo que fica como marca deste governo é a sua capacidade para andar a aldrabar as pessoas e para produzir discursos conforme as conveniências, conforme o ar dos tempos. Há 4 anos o modelo do Pinto de Sousa era o Blair (porque parece que ser-se moderno era ser-se terceira via), e ainda há pouco tempo ele era elogiado pelo Sarkozy pela sua coragem «reformista» (que não socialista ou de esquerda); mas agora parece que o que é bom é ser-se um Obama, ser adepto da mudança e ter esperança. Estou a ver que ser-se moderno é seguir a moda: do Armani e não só...

Carlos Vidal a 18 de Agosto de 2009 às 22:08
Não, não vou insistir muito mais nisto.
O meu caro é que falou em empurrar (repito, "empurrar") uma linha divisória - isso quer dizer que é preciso esforço, muito esforço para colocar o PS à esquerda.
Depois, nas questões LGBT, o PS tem que se lhe diga: chumbo de casamentos gay em Outubro - agora, recusa da adopção.
Outro ponto interessante: o que pensa uma pessoa progressista do Código do Trabalho do PS?
Meu caro, é com realidades como estas que se faz o progressismo.

Pedro Sá a 19 de Agosto de 2009 às 19:55
Qualquer pessoa responsável e de esquerda defende o Código do Trabalho do PS. Argumentar contra ele com supostos argumentos de esquerda é pura demagogia barata e desonestidade intelectual.

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