Por Ana Paula Fitas | Sábado, 15 Agosto , 2009, 07:21

Ao anúncio do primeiro sinal de crescimento do PIB após 3 trimestres de queda contínua, seguiu-se a divulgação da actual taxa de desemprego: 9,1% ou seja, cerca de meio milhão de portugueses. A notícia, preocupante, teve um impacto social interessante: para a população em geral significou a confirmação das previsões que vinham a ser divulgadas desde que a crise deflagrou, não implicando, por esta razão, nenhuma surpresa extraordinária, nomeadamente porque os cidadãos têm uma noção clara da dimensão deste flagelo já que o vivem diariamente nas famílias e na gestão da sobrevivência; para a oposição, oportunista e sensacionalista, foi a oportunidade para, uma vez mais, demagogicamente, atribuirem culpas ao Governo por uma realidade que transcende em muito a capacidade de intervenção do Estado... porque o desemprego decorre da fragilidade do tecido económico, da ausência de criação de postos de trabalho, da falência das empresas - tal como a pobreza resulta da precariedade, da mobilidade e da flexibilidade laboral capaz vez mais atingida e exposta à exploração dos trabalhadores, vítimas do aumento incontrolado dos horários de trabalho e de uma assustadora e crescente prática de baixos salários... a título de

enquadramento macro-económico contam-se, entretanto,, como se não bastasse o que acabamos de sistematizar, ou melhor, na sequência destas realidades, as condições económicas inerentes ao deficitário investimento externo e ao recorrente endividamento externo assente numa reduzida taxa de exportações. É evidente por tudo isto que, quer a crise estrutural, quer, em si próprio, o problema económico nacional, não decorrem de uma legislatura. Mais, uma rede de problemas interactivos desta natureza cria uma espécie de bloqueio aos efeitos das medidas positivas que, conjunturalmente, podem alterar, sectorialmente, aqui e ali, a realidade. Por isso, sejamos sérios: antes de mais, reconhecendo que foi a persistente reivindicação político-partidária dos grandes defensores do mercado liberal que conduziu a economia às condições que configuram o panorama nacional; depois, denotando a consciência do papel dos compromissos comunitários e internacionais em que reside grande parte dos condicionalismos que conduziram à desmaterialização progressiva do aparelho produtivo nacional e, finalmente, mas não menos importante, quiçá determinante, o facto da alternância política em que o eleitorado vai apostando, numa lógica simplista de penalização do agravamento das condições de vida, que deita por terra esse recente e martelado argumento das maiorias govenamentais dos últimos 15 anos... porque uma maioria de 4 anos, seguida de uma maioria de sinal contrário por outros tantos anos, significa, nada mais, nada menos do que um jogo de soma zero que não permite a rentabilização das medidas políticas adoptadas pela governação e, consequentemente, a emergência dos seus efeitos e do seu impacto na vida dos portugueses. A gravidade das falácias políticas da oposição em que assentam as suas campanhas demagógicas e sensacionalistas é e será a principal responsável pelas dificuldades com que continuaremos a deparar-nos, no caso de não haver uma maioria socialista para governar... e digo uma maioria socialista porque o seu programa governativo, na sequência do que tem vindo a ser feito, é o único com garantias de execuibilidade ou seja, o que, no espaço de tempo de uma legislatura, pode concretizar medidas viáveis de recuperação económica, a mais urgente das quais é o combate ao desemprego e o atenuar dos efeitos do empobrecimento e da exclusão social que paira, como uma ameaça, cada vez mais próxima, sobre os portugueses.

 

(Este texto tem publicação simultânea no A Nossa Candeia, Público-Eleições 2009 e PNET-Política)


 

    


josé Vladimiro a 15 de Agosto de 2009 às 14:06
"tal como a pobreza resulta da precariedade, da mobilidade e da flexibilidade laboral capaz vez mais atingida e exposta à exploração dos trabalhadores, vítimas do aumento incontrolado dos horários de trabalho e de uma assustadora e crescente prática de baixos salários" ,

Ana, o PS/UGT com a flexisegurança e o Código de Trabalho do Vieira da Silva não contribuíram em nada para o agravamento desta situação...

Certamente, estes problemas nasceram por geração espontânea...

Ana Paula Fitas a 16 de Agosto de 2009 às 18:51
Caro José Vladimiro,

Não pretendi, no texto publicado, minimizar os efeitos do Código do Trabalho e menos ainda, ignorar as causas dos problemas... contudo, face à situação real do presente, não é solução "chorar pelo leite derramado" a que fomos conduzidos no âmbito de uma lógica de mercado que inventivou os empregadores a optarem por lógicas neoliberais desumanizadas que implicaram a progressiva perda de direitos dos trabalhadores... a questão é, como sabe, complexa... não criar condições para a manutenção ou crescimento de postos de trabalho, através de pactos com os parceiros sociais, poderia ter conduzido a uma taxa de desemprego que facilmente nos aproximaria da recente situação atravessada pela população argentina... não há, neste contexto, escolhas perfeitas... há opções possíveis... a que deveremos sempre exigir melhorias e aperfeiçoamentos...

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