Por Tomás Vasques | Quinta-feira, 13 Agosto , 2009, 20:22

A deputada do BE Helena Pinto terá afirmado a semana passada que “o Partido Socialista tem um programa que é secreto”. Ora, sendo público o programa do PS, a afirmação é uma encenação própria da liturgia e da cultura política da extrema-esquerda.

Mas, comecemos pelo princípio. O BE (uma coligação de extrema-esquerda, unindo personagens e grupos irredutivelmente desavindos nos anos 70 e 80) é o fenómeno político mais relevante desta década. Desde logo, pela capacidade de unir vaidades pessoais e sectarismos de grupo que se anavalhavam nas estreitas e envelhecidas vielas ideológicas que frequentavam. Em segundo lugar, pelos resultados eleitorais e pelo fascínio sobre a juventude que tal convergência produziu. E, finalmente, porque souberam enfeitar a sua matriz ideológica e política e os objectivos estratégicos com fitinhas coloridas, como se de uma prenda de Natal se tratasse.

O invólucro assim enfeitado – que vai da defesa dos animais ao ambiente, das zonas uraníferas ao combate à corrupção – tem lastro para fidelizar o seu eleitorado nuclear (o que opta em função da matriz ideológica) e, ao mesmo tempo – pela transversalidade das «causas» – atrair os descontentamentos, as vinganças e os revanchismos: do PSD, do CDS e, sobretudo, do PS (os que se sentem penalizados por medidas do Governo, sejam professores ou magistrados). O BE repete, hoje, o papel que coube ao PRD há mais de vinte anos: o de tubo de escape de desenfados e pecados. Não faltam sequer coincidências no «discurso» moralista. E, tal como aconteceu com o PRD, também hoje há militante do CDS e padres católicos a abraçarem o BE.

Contudo, o BE não tem nenhuma prenda de Natal para oferecer aos portugueses. Tal como o PCP, o BE só concebe uma sociedade «justa» sem grupos económicos, sem economia de mercado, sem iniciativa privada. Querem repetir as receitas falidas e enterradas nos escombros do muro de Berlim. «A todos o que é de todos» – não é um slogan de ocasião; é todo um programa. Começaria pelo controlo da actividade bancária (afim de estrangular a actividade económica) e um vasto plano de nacionalização dos sectores estratégicos («energia, água, transportes públicos, vias de comunicação, entre outros»), como consta no seu programa. Depois, se lhes fosse permitido, iria por aí fora. Mais cedo ou mais tarde entrariam pelos supermercados a fixar o preço do pão e do leite. Hoje, sabemos onde estes caminhos desembocaram: na miséria, no desemprego e na privação das liberdades.

Há descontentamentos, vinganças e revanchismos eleitorais que podem custar muito caro e durante muitos anos.

 

Publicado no Diário Económico.


josé Vladimiro a 13 de Agosto de 2009 às 22:13
Yo no creo en brujas, pero que
las hay, las hay!

portela menos 1 a 13 de Agosto de 2009 às 22:15
"Há descontentamentos, vinganças e revanchismos eleitorais que podem custar muito caro e durante muitos anos"

ops! ameaças e chantagem? óquisto chegou!
cada partido vai ter os votos que merece; não se percebe porquê tanto pânico no Largo do Rato!

josé Vladimiro a 13 de Agosto de 2009 às 22:32
Portela,

Isto é falta de fé! Eles não acreditam! O poder foge-lhes debaixo dos pés!

Já reparaste que eles nem comentarem, ( ao menos em tom laudatório...), o artigo de opinião do Sr. Engenheiro...é muito estranho...

Miguel Lopes a 13 de Agosto de 2009 às 23:54
"Tal como o PCP, o BE só concebe uma sociedade «justa» sem grupos económicos, sem economia de mercado, sem iniciativa privada."

Sem propriedade privada dos meios de produção. Nada do que disse porque o mercado pode existir numa sociedade onde os meios de produção são comuns (propriedade do Estado ou comunitária, o que não é irrelevante). Para além disso, o mercado é apenas uma das formas de afectar o produto, quando existe. O que a direita, que o PS tem sabido imitar, tenta fazer é criar mercados onde eles não existem. O que me leva à questão seguinte...

"nacionalização dos sectores estratégicos («energia, água, transportes públicos, vias de comunicação, entre outros»)"

São monopólios naturais, portanto estou de acordo com a sua nacionalização.
Gostaria de saber a sua opinião acerca disto: A água, a energia e as estradas devem ser entregues aos privados?

"Depois, se lhes fosse permitido, iria por aí fora. Mais cedo ou mais tarde entrariam pelos supermercados a fixar o preço do pão e do leite."

uHUhuhUhuHUh....cuidado com o bicho-papão...
Veja-se o cinismo da direita neste aglomerado de estribilhos: "fiquem-se lá pelo diabo que conhecem...não se ponham com aventuras..."
Se o ser humano tivesse menosprezado, dessa maneira, a sua capacidade de inventar e corrigir as injustiças, ainda estaríamos na selva que era o capitalismo do sec. XIX.

"A todos o que é de todos" não nos leva ao Estado-patrão, por muito facilitada que lhe ficasse a argumentação. Se bastasse ser do Estado para ser de todos, então o socialismo já teria sido atingido aquando dos modelos asiáticos de produção. Não chega. A relação política de poder é até capaz originar maior apropriação de riqueza colectiva, do que a relação económica de exploração.

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