Por Sofia Loureiro dos Santos | Terça-feira, 11 Agosto , 2009, 18:24

 

A oposição ao governo e ao PS tenta, de todas as formas que conhece, exceptuando propor alternativas à política até agora seguida, criar casos e factos políticos, com manobras de diversão para esconder a falta de projectos políticos credíveis.

 

Foram várias as tentativas: a alegada falsificação das estatísticas relacionadas com os incêndios, a desvalorização do Parlamento, a não nomeação do Prof. Lobo Antunes para o novo CNECV, o recenseamento automático através do cartão do cidadão, que me lembre. Até agora nenhuma delas funcionou.

 

Mas eis que voltamos ao tema de Verão por excelência, mas que tem vindo a ser esquecido pelos jornais nos últimos tempos. Quando falta assunto, volta-se ao número de incêndios e à área ardida, habitualmente para culpar algum governante. Este ano, e com certeza não por acaso, Jaime Silva aparece no Público, na rubrica Sobe e Desce da última página (link não disponível), com a seta para baixo por causa da área ardida em incêndios deste ano, que é superior à dos anos anteriores, é mesmo superior à totalidade da área ardida no ano passado.

 

Também outras pessoas já começaram a pegar neste tema, usando-o como (mais) um dos falhanços do governo.

 

Mas seria muito interessante que se analisassem as estatísticas que constam do Relatório Provisório de Incêndios Florestais, disponível no site da Autoridade Florestal Nacional - Defesa da Floresta, e que analisa os dados disponíveis deste ano em comparação com a média dos anos de 1999 a 2008, e os dados deste ano, mês a mês, comparando-os também com a média dos dados de 1999 a 2008.

 

Se olharmos para os dados em gráfico, em número de ocorrências:

 

 
e em total de área ardida (em hectares):

 


podemos perceber que, a seguir a um ano de 2005 catastrófico, aos anos de 1999 a 2004 mais ou menos semelhantes, em que a média de ocorrências (no período de 1 de Janeiro a 31 de Julho) variava entre 11.000 e 14.800, com excepção de 2001 (cerca 9.000), e a média de área ardida variava entre 37.000 e 135.000 hectares (com excepção de 2001 – 28.000 ha), a partir de 2006 houve uma drástica descida no que diz respeito aos 2 indicadores.

 

É verdade que este ano tem corrido pior que os anteriores, mesmo assim melhor que os anos anteriores a 2006, sendo este aumento devido a um enorme acréscimo de ocorrências e de área ardida em Março, mês anormalmente quente neste ano, que representa 35, 75% das ocorrências e 62,22% da área ardida, até 31 de Julho.

 

Há que ser sério na discussão dos reais problemas que deverão ser resolvidos. Talvez fosse preferível tentar perceber quais as medidas que se devem implementar para que, durante todo o ano, haja o mesmo alerta e a mesma capacidade de combater os incêndios que durante a época de Verão.

 

Nota: também aqui.

 


Paulo Ferreira a 11 de Agosto de 2009 às 18:59
Excelente "desmontagem" das campanhas "de verdade" que temos assistido, contra factos não há argumentos por muito ruido, distorção ou manipulação dos factos que alguns comentadores, analistas, directores de jornais ou porta vozes de alguns partidos tentem realizar....

henrique pereira dos santos a 11 de Agosto de 2009 às 19:39
Cara Sofia,
Não se meta por esta demonstração estatística que não vale a pena.
Os próximos três dias vão demonstrar que tudo o que for escrito com base nos números até agora, vai estar desactualizado no fim da semana.
Desde ontem, como deve ter reparado pelo calor e secura no ar, entrou um novo episódio de vento Leste, felizmente com vento fraco, e que as previsões apontam para durar até quinta, sexta feira. Se se confirmarem as previsões verá que uma boa parte do país vai estar a arder.
O que aconteceu no terrível ano de 2003 foi que houve um episódio destes durante quaser quinze dias e com vento forte (com a agravante do vento ter virado a Sul no dia três de Agosto e depois ter retomado o Leste de novo).
Em 2005 houve vários desses episódios.
Quer o Governo, quer a oposição têm-se esquecido que o que se passa com os fogos em Portugal é resultado de duas coisas: o abandono rural, que faz acumular combustível nos montes, e características climáticas definidas (que são as mesmas que nos fazem ser o maior produtor mundial de cortiça).
Os três últimos anos têm sido amenos e o Governo tem enchido a boca dizendo que isso se deve às excelente perfomance do Governo. Há de facto uma melhoria do dispositivo de combate aos incêndios que se nota em condições amenas ou médias.
O problema é que 80% da área ardida se concentra em quinze dias de condições extremas (que não existiram nos trê últimos anos). E o dispositivo ainda não foi testado nessas condições.
O Governo até mudou a média rolante de cinco para dez anos para que os anos de 2003 e 2005 não saíssem da estatística para empolar a média de área ardida, mas isso não passa de um truque estatístico.
Que aliás tem sido usado pela oposição também.
Este duelo estatístico não tem qualquer interesse para a resolução do problema de fundo que consiste em olhar para o mundo rural de forma bem diferente do que governo e oposição têm feito.
Os fogos são apenas um sintoma e é triste ver a oposição e o Governo a discutir estatísticas sobre o sintoma enquanto deixam a infecção crescer.
henrique pereira dos santos

Sofia Loureiro dos Santos a 11 de Agosto de 2009 às 21:55
"O problema é que 80% da área ardida se concentra em quinze dias de condições extremas (que não existiram nos três últimos anos)." - mas pelos dados do relatório será existiram de 1999 a 2005, e é esse o fenómeno que faz com que em todos esses anos (7) a média de ocorrências e de área ardida seja sempre muito superior às das que se verificaram nos 3 últimos anos?

Do que estou a falar é de tendências. Quanto ao problema das causas estou de acordo consigo. Mas não vi nenhuma formação política, corrija-me se estou enganada, a discuti-las e muito menos a propor soluções.

henrique pereira dos santos a 11 de Agosto de 2009 às 23:06
Cara Sofia,
Os fogos dependem em Portugal, como penso já ter dito, de haver combustível e de condições climáticas extremas.
Quer um quer outro destes factores não podem ser analisados estatisticamente com séries curtas.
O primeiro porque corresponde a processo económico e social de ciclo longo, que se inicia com a emigração dos anos sessenta e setenta e que se mantém e acentua (veja se quiser o que escrevemos em
http://ambio.blogspot.com/2006/04/ideias-trgicas-para-o-mundo-rural.html
apesar de extenso ajuda a enquadrar a discussão).
O segundo porque as circunstâncias meteorológicas em que as matas ardem correspondem a anomalias estatísticas (olhe bem para os gráficos que apresenta e repare que 2003 e 2005 são claramente anormais, como aliás o ano passado, agora em sentido inverso). Por razões como esta é que as normais climatológicas, que são usadas para caracterizar o clima, têm séries de 30 anos.
Ora a série que usa, de dez anos, não serve para discutir tendências. Aliás usava-se uma série de cinco anos, ainda mais inadequada, mas em 2008, como a média usada como referência ia cair abruptamente pela retirada do ano de 2003, passou-se a usar a média rolante dos dez anos.
Os três últimos anos explicam-se essencialmente por razões meteorológicas (como vai poder verificar ao longo desta semana).
O Governo quis fazer propaganda com os resultados dos três últimos anos e portanto será responsabilizado pelo que acontecer este ano (erradamente, como foi errado pretender que a diminuição dos últimos três anos resultou da política do Governo).
Quanto ao debate político entre todas as forças políticas penso que já disse que nesta matéria são muito pobres tecnicamente, quase ao nível do comentário do senhor Assis.
Ailás já ouvi Manuela Ferreira Leite assumir um chavão clássico, o do papel estratégico da floresta no desenvolvimento de Portugal, que penso que é um grande consenso nacional mas que eu acho, minoritário dos minoritários, um erro.
Quanto ao senhor Assis aconselho-o a ler as análises que foram feitas sobre o ano de 2003 a frio, pelos investigadores que estudaram o assunto (aconselho dois, José Miguel Cardoso Pereira, do ISA e Paulo Fernandes, da UTAD) para ver se deixa de olhar para isto como um benfica - porto que está muito longe de ser.
E, se lhe for possível, a subir um bocadinho o nível acima do poderoso argumento político "a velha Ferreira leite".
henrique pereira dos santos

Sofia Loureiro dos Santos a 12 de Agosto de 2009 às 13:08
Henrique Pereira dos Santos

Agradeço os seus comentários e até aceito perfeitamente o que me diz ao falar da exiguidade de um intervalo temporal de 10 anos. Mas gostaria que me dissesse então como posso ter acesso aos dados disponíveis dos últimos 30 anos a que se referiu e se me pode remeter para algum estudo que evidencie o efeito de desertificação de que falou.

henrique pereira dos santos a 12 de Agosto de 2009 às 14:01
Não se existem por aí os dados de área ardida dos últimos trinta anos (há para bastante mais que dez, mas nõa me lembro se chegam aos trinta) mas quem melhor sabe do assunto e tem a melhor informação estatística sobre áreas ardidas é o José Miguel Cardoso Pereira, do ISA. A autoridade florestal nacional tembém tem boa informação (muita será até a mesma) e é ver na página deles.
Documentar o abanadono rural é fácil: é olhar para as estatísticas da população, ou, o que neste caso até é mais sgnificativo, para a evolução do efectivo de pequenos ruminantes ao longo dos últimos 50/ 60 anos.
Sobre a relação entre o abandono e os fogos pode falar quer com o José Miguel Cardoso Pereira, quer com o Paulo Fernandes da UTAD, quer com o centro Baeta Neves, também do ISA, noemadamente com o Francisco Rego ou o Francisco Moreira.
Eles é que investigam, eu sou só um pobre homem da Póvoa.
henrique pereira dos santos

assis a 11 de Agosto de 2009 às 22:09
tem quem falar também do record absoluto de mais de 400 mil hectares ardidos em 2003. e já agora também convém falar do episódio, nesse verão funesto, em que o ministro figueiredo lopes pedia, até às lágrimas, mais dotações para combate a incêndios que a ministra das finanças (a velha ferreira leite) lhe negava autoritariamente. e talvez também lembrar que depois dessa catástrofe, o governo de durão barroso pediu ajudas à união europeia no valor de 30 milhões de euros que posteriormente foram propostos 50 milhões pelo comissário da agricultura em visita aos locais ardidos (praga, no inverno seguinte, seria contemplada com mais de 100 milhões de ajudas e a república checa ainda não pertencia à união europeia). e finalmente a pérola do chefe da bancada psd na assembleia guilherme silva) a dizer que o número de mortos (19?) causados pelos incêndios até não era muito elevado.
era gente deste calibre que nos governava ( e que quer voltar agora, embalada pela crise internacional)

Anónimo a 11 de Agosto de 2009 às 19:46
A não nomeação do Prof não foi um acto bonito, convenhamos!

Sofia Loureiro dos Santos a 11 de Agosto de 2009 às 22:03
Porquê? Sabe alguma coisa que não saibamos?

henrique pereira dos santos a 11 de Agosto de 2009 às 23:14
E já agora, que me esqueci, aconselho também a leitura de um post recente que fiz e que ajuda a compreender por que razão mais dinheiro não quer dizer necessariamente melhores soluções.
http://ambio.blogspot.com/2009/08/em-louvor-de-thomas.html
Não gosto da propaganda de blogs próprios feita à boleia das caixas de comentários mas neste caso acho que tenho razão em sugerir a leitura deste post (há depois uma sequela sobre Thomas e Tomás em consequência de um comentário sobre o facto de serem quase sempre estrangeiros os responsáveis pelos exemplos de sustentabilidade como o que cito no post, mas acho que já chega de propaganda ao que escrevo noutro blog).
henrique pereira dos santos

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