Por GWOM | Segunda-feira, 10 Agosto , 2009, 15:00

Tem surgido, um pouco por todo a parte, na senda neoclássica, e vividas as experiências (controladas e localizadas) dos anos oitenta, a ideia de que é unicamente com a descida de impostos que a economia voltará a funcionar, pelo choque da oferta agregada. Sucede, porém, que, para além da mencionada oferta, a procura efectiva global não é uma abstracção. Daí que John M. Keynes tenha dito que não há um só equilíbrio na economia, como pretendia Léon Walras. E o que acontece ainda hoje é que há quem continue a pensar que o velho e estático equilíbrio geral walrasiano ainda existe. Nas palavras de Irving Fisher, “é absurdo assumir que, no longo prazo, as variáveis económicas, total ou parcialmente, possam permanecer estáveis, em perfeito equilíbrio, assim como poder alguma vez ver o Oceano Atlântico sem ondas” (The Debt-Deflation Theory of Great Depressions, 1933).

 

É verdade que os modelos até aos anos setenta reconheciam que as expectativas influenciavam o comportamento dos agentes económicos, mas que não as incorporavam explicitamente. Robert Lucas assumiu, contudo, que os modelos apenas capturavam as relações entre as variáveis económicas no passado, tendo em conta as políticas pretéritas. Ora, sempre que as políticas mudavam, as expectativas dos agentes económicos deveriam mudar e, consequentemente, as simulações macroeconómicas deveriam passar a ter isso em consideração.

 

É preciso dizê-lo com muita clareza: perante a ameaça do desemprego (que corrói a coesão social, a confiança e as expectativas dos agentes) é fundamental não ficar pelo wishfull thinking do redimensionamento abstracto do Estado, nem pela ilusão do equilíbrio económico único. Só essa tentação pode levar a acreditar na varinha mágica dos desagravamentos fiscais inconsistentes e sem limites (à espera do milagre da multiplicação dos pães.

 

Franklin D. Roosevelt, adorador do mercado como o único regulador, na liberal América, percebeu que a coesão social exigia que o Estado assumisse responsabilidades transitórias, mas claras. E hoje sabemos que não podemos cometer o erro antigo de tentar seguir Keynes esquecendo que foi o mesmo que nos ensinou que, num caso de desemprego como o actual, e existindo ainda um grande potencial de requalificação da economia portuguesa, não há alternativa se a sociedade não investir.

 

As medidas de redução de receitas cegas e tomadas de modo indiferenciado sem atender à conjuntura do emprego conduzem ao desastre certo… como no dia em que o Oceano Atlântico deixasse de ter ondas…

(artigo publicado no Diário Económico)


JPP a 10 de Agosto de 2009 às 15:34
É impressionante como ainda existe tanta gente que se continua a apoiar em Keynes. A teoria de Keynes só tem aplicação numa economia planificada, tal como ele reconhece na sua obra. Numa economia de mercado temos de deixar as forças de mercado actuarem livremente. O Estado ao intervir apenas está a distorcer o mercado e a promover a má alocação de recursos. Aliás, é interessante que os seguidores de Keynes gostem muito do investimento público ou da sociedade, esquecendo-se de discutir a eficiência desse investimento. No caso da crise actual temos um problema de excesso de crédito. A solução é reduzir o crédito e reestruturar a economia. Isso só pode ser feito através da poupança e da redução do consumo. Taxas de juro perto do 0 e medidas de quantitative easing apenas vão contribuir para pressões inflacionistas. Isto foi precisamente o que nos levou à actual crise. Aliás, basta ver o que aconteceu no Japão na década de 90 em os bancos e empresas "zombies" deviam ter ido à falência. Chama-se a isso "criação destrutiva", termo usado por Schumpeter para descrever o processo de reinvenção económico. Por isso é que não devemos ter medo do desemprego. Só destruindo empregos pouco produtivos é que se podem libertar os recursos para outras partes da economia. Por isso é que apostar em mais Estado é a política errada e só servirá para alimentar mais totalitarismos. O Estado é o problema e não a solução.

amália a 10 de Agosto de 2009 às 20:11
Caro/a JPP, está desempregado/a? Se sim, deve sentir-se muito feliz.

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